terça-feira, 30 de agosto de 2011

Os serviços secretos portugueses, num edifício exteriormente insuspeito, abrem, compilam, analisam, informação, estatísticas, dossiers. Supercomputadores alinhados, diligentemente trabalhando, pessoas de aspecto comum, porém compenetradas, com certo aprumo nos modos. Gabinetes a perder de vista, como favos numa colmeia apinhada e tensa. Abre-se uma porta. A criada tem de entrar de olhos vendados, com o carrinho das bolachas e do chocolate quente. Um agente encosta-a de repente à parede gritando-lhe aos ouvidos «Quem és tu?», «A tua escrava!», «Diz mais alto!», «Ahh».
São homens duros. Brutais às vezes, com certo aprumo nos modos, se possível. Acima de tudo, fazem o seu trabalho. «Quem és tu?», «Sou um carrinho inteligente!», «Não percebi bem! Diz mais alto!», «Ouça, não quer antes um chá?», «Ai, robot, ai! Se soubesses o que é a minha vida!». E é de facto uma vida penosa, sem que se possa dizer no entanto, especialmente o robot, que ele aqui não tem um momento de exagero.
Enfim, há que perceber a mentalidade muito particular deste tipo de operacionais, não é assim? O círculo fechado em que se trabalha, o sentido do dever, a impossibilidade de falar do que se faz, de dizer coisas cá para fora. A impossibilidade, repare-se, a impossibilidade! De dizer coisas cá para fora! Muito sigilo, por ali. Muito sentido do dever. Entretanto chegam mais dossiers.
Um agente detecta algo de suspeito, finalmente: um colega chama «maluca» a outro; logo depois desculpa-se, e ambos dizem «meu filho, teu afilhado; agora vamos espiar o colega do lado!». Ora esse agente de que falam é o que estava precisamente a detectar a situação já desde o início numa secretária contígua, apesar dos headphones e do dedo médio em riste bem à vista, para mostrar desdém. Ou antes, para dele fazer crer mais ainda os outros, como disfarce, e aproveitar isso sim para detectar algo suspeito, como dissemos. Detectar e reportar. Através de mail, em tempo real. A um jornal, empresa, empresa detentora de jornais, a uma dona de casa, ou outra coisa, enfim, a um destinatário com relevância e de suficientemente segurança e descrição para receber informações dos serviços secretos da nação.
É então que uma das «comadres» da secretária do lado lhe pede pioneses, aproveitando o momento de distracção para passar os olhos pelo endereço de correio electrónico, no ecrã aberto. Mas o nosso agente previra o golpe e segue discretamente o destino do papel com o endereço, de mão em mão, de maneira que quando noutro sector se fica a saber quem era o destinatário do mail, logo elementos feitos com ele obtêm à socapa uma cópia da lista dos contactos do referido destinatário, fornecida por uma empresa de telecomunicações cujo grupo detém um diário, para dar a conhecer a um jornalista de outro jornal, a isto reage o grupo dos da secretária adjacente à do nosso agente procurando protestar junto das chefias quanto a tudo isto, mas as que não se queixavam de mal-estar tinham tinham-se ausentado permanentemente para uma empresa, ou grupo, de comunicações ou telecomunicações, ou donas de casa, até.
Este sistema permite a qualquer serviço secreto encontrar sempre quem dê o devido valor às suas informações, que tão árduo trabalho requerem, e, a qualquer jornal, obter notícias sobre coisas sérias e graves, pois que nem sempre elas se encontram à mão.

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